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Memória e Continuidade dos Nephalin

Uma das características mais incomuns dos Nephalin é também uma das mais trágicas. Embora alguns indivíduos tenham sobrevivido por milhares de anos, sua mente não foi projetada para acumular indefinidamente conhecimento e experiências. Os Nephalin possuem uma característica conhecida entre eles como Memória Volúvel, uma peculiaridade de sua fisiologia alquímica que faz com que determinadas lembranças e conhecimentos desapareçam gradualmente com o passar do tempo.

Essa característica é uma das principais razões pelas quais a idade de um Nephalin não pode ser usada como medida de sua experiência.

Um Nephalin pode ter dois mil anos e possuir conhecimentos que nenhum humano vivo conhece. Mas também pode ter dois mil anos e ser incapaz de lembrar o que fez durante grande parte desse período.

A memória dos Nephalin não funciona como um arquivo que cresce indefinidamente. Ela parece possuir uma capacidade limitada de retenção. Informações utilizadas frequentemente são reforçadas e permanecem por períodos extremamente longos, enquanto conhecimentos que deixam de ser utilizados começam lentamente a desaparecer.

Esse processo é gradual e geralmente imperceptível.

Um Nephalin não simplesmente acorda sem saber determinada habilidade. Primeiro, detalhes começam a desaparecer. Depois, informações menos importantes são esquecidas. Com o passar dos séculos, aquilo que não foi utilizado pode se transformar em uma vaga sensação de familiaridade, até desaparecer completamente.

Algumas memórias, entretanto, parecem resistir muito melhor.

Experiências associadas a emoções extremamente fortes, conhecimentos constantemente praticados e habilidades profundamente incorporadas ao comportamento tendem a permanecer durante períodos muito maiores.

Isso significa que um Nephalin pode esquecer quem lhe ensinou a lutar, mas continuar sabendo lutar.


Períodos de Dormência

A Memória Volúvel está intimamente relacionada a outra característica da fisiologia Nephalin: os Períodos de Dormência.

Os Nephalin são capazes de reduzir seu metabolismo a níveis extremamente baixos, entrando em um estado semelhante a um sono profundo. Nesse estado, suas necessidades fisiológicas diminuem drasticamente e o indivíduo pode permanecer inconsciente durante períodos que variam de alguns meses a várias décadas.

Acredita-se que essa capacidade tenha sido deliberadamente incorporada pelos alquimistas que criaram a raça.

Para uma arma de guerra, a capacidade de permanecer inativa durante longos períodos era extremamente útil. Exércitos Nephalin podiam ser mantidos em locais protegidos e despertados quando fossem necessários, sem precisar envelhecer ou consumir grandes quantidades de recursos durante o período de espera.

Entretanto, a dormência possui um efeito colateral particularmente cruel.

Quanto mais longa a dormência, maior tende a ser a erosão das memórias.

Um Nephalin que passa algumas décadas em dormência pode despertar apenas com pequenas lacunas em suas lembranças. Indivíduos que permaneceram adormecidos durante séculos podem despertar em um mundo completamente diferente daquele que conheciam, carregando apenas fragmentos de suas antigas vidas.

Alguns Nephalin atravessaram dessa maneira o próprio Cataclismo.

Dormiram quando Zandia ainda era um mundo verde e despertaram quando encontraram um planeta coberto por desertos.

Para esses indivíduos, a transformação de Zandia não é uma lembrança histórica. É algo que aconteceu enquanto estavam inconscientes.

Isso criou uma situação peculiar: alguns dos Nephalin mais antigos são também aqueles que possuem as maiores lacunas em suas memórias.

Dormência Nefalin — Entrando em Estase:

A Dormência não é simplesmente um sono profundo ou uma hibernação comum. Quando entra nesse estado, o organismo do Nephalin entra em estase completa: todas as suas funções fisiológicas são interrompidas ou reduzidas ao nível mínimo necessário para preservar sua existência. Respiração, circulação, metabolismo e demais processos vitais cessam temporariamente, fazendo com que o indivíduo pareça morto para qualquer observador externo.

Um Nephalin pode entrar voluntariamente em Dormência mediante um teste de Vontade-4. Entretanto, a estase também pode ocorrer involuntariamente como mecanismo de sobrevivência. Se o Nephalin deixar de receber sua dose diária do Elixir de Calcita Negra e seus Pontos de Vida chegarem a 0 PV, seu organismo entra automaticamente em Dormência.

A necessidade do elixir é, portanto, absoluta. O Nephalin precisa ingerir sua dose diariamente; caso contrário, ao amanhecer, perde 2 PV. Após uma semana sem receber o elixir, o processo de deterioração se acelera: além da perda diária de 2 PV ao amanhecer, o Nephalin passa a perder 1 PV adicional a cada 6 horas.

A Dormência pode preservar o Nephalin por períodos extremamente longos, mas não constitui uma cura para a deficiência do elixir. Ela é o último mecanismo de sobrevivência de um organismo criado para permanecer vivo mesmo quando todas as demais funções biológicas deixam de operar.


As Muitas Vidas de um Nephalin

A combinação entre longevidade, Memória Volúvel e períodos de dormência faz com que a existência de um Nephalin seja frequentemente dividida em diferentes Eras ou Vidas.

Um Nephalin que existe há dois mil anos não necessariamente considera toda essa existência como uma única vida contínua.

Ele pode ter sido soldado durante dois séculos, ferreiro durante outros cem anos, comerciante durante cinquenta, explorador durante trezentos e então ter passado séculos em dormência.

Quando despertou, talvez tenha escolhido uma nova profissão, adotado novos companheiros e desenvolvido uma personalidade parcialmente diferente.

Essas diferentes fases são conhecidas como Vidas entre os Nephalin.

Uma Vida não significa que o indivíduo tenha se tornado outra pessoa literalmente. Ele continua sendo o mesmo Nephalin, mas seus objetivos, relações, conhecimentos e até mesmo sua maneira de enxergar o mundo podem mudar radicalmente.

Um Nephalin pode dizer:

"Na minha primeira Vida eu fui soldado."

E não considerar estranho acrescentar:

"Na segunda, fui ferreiro."

"Na terceira, vivi entre os humanos."

"Da quarta, lembro muito pouco."

"Esta é a minha quinta Vida."

As Vidas ajudam os Nephalin a lidar psicologicamente com sua própria longevidade. Em vez de pensar em uma existência contínua de milhares de anos, eles enxergam sua história como uma sequência de períodos separados. Isso também permite que um Nephalin abandone uma identidade sem sentir que está abandonando completamente quem é.

Um antigo soldado pode decidir tornar-se artista. Um mercenário pode dedicar sua nova Vida à preservação da história. Um servo de um Arquiteto pode abandonar seu senhor e começar uma nova existência como aventureiro.

Para outras raças, isso pode parecer uma mudança tardia na vida. Para um Nephalin, pode ser simplesmente o início de outra Vida.


A Fragilidade da Memória

A Memória Volúvel possui uma consequência particularmente dolorosa. Um Nephalin pode sobreviver a todos aqueles que conheceu e, séculos depois, começar a esquecer essas mesmas pessoas.

No início, desaparecem pequenos detalhes: o som de uma voz, uma conversa, o rosto exato de alguém. Depois, nomes podem desaparecer. Mais tarde, a própria relação pode se tornar nebulosa. Um Nephalin pode saber que amou alguém sem conseguir lembrar seu rosto. Pode carregar durante séculos uma espada que pertenceu a um companheiro e não lembrar mais o nome daquele companheiro. Pode visitar uma ruína e sentir uma profunda tristeza sem saber por quê.

Isso criou uma relação muito particular entre os Nephalin e a memória. Eles sabem que suas próprias mentes são imperfeitas. E, por isso, não confiam apenas nelas.


Os Guardiões Mnemônicos

Para preservar aquilo que inevitavelmente será esquecido, os Nephalin desenvolveram uma instituição conhecida como Guardiões Mnemônicos. Os Guardiões Mnemônicos não são simplesmente historiadores. Sua função fundamental é preservar externamente aquilo que a mente Nephalin pode perder.

Eles mantêm registros de nomes, acontecimentos, lugares, técnicas, tradições, linhagens, guerras e conhecimentos antigos. Também registram as Vidas de indivíduos importantes, criando relatos para que um Nephalin possa descobrir, séculos depois, quem ele próprio foi.

Os arquivos dos Guardiões Mnemônicos são considerados alguns dos tesouros mais importantes da raça. Um volume aparentemente banal pode conter a descrição de uma cidade que desapareceu há dois mil anos. Outro pode registrar a existência de um Nephalin que morreu há séculos. Um terceiro pode conter as memórias de um indivíduo que hoje já não consegue lembrar aquilo que escreveu. Para os Nephalin, esses registros possuem um significado muito maior do que simples documentos históricos.

Eles são uma extensão da própria memória da raça.


Os Guardiões e as Vidas

Os Guardiões Mnemônicos também mantêm registros pessoais dos Nephalin que desejam preservar suas diferentes Vidas. Um indivíduo pode entregar seus diários, relatos e objetos pessoais aos Guardiões antes de entrar em dormência. Quando desperta décadas ou séculos depois, pode procurar seus registros e descobrir quem foi.

Isso pode produzir situações emocionalmente complexas. Um Nephalin desperta depois de trezentos anos e visita os Guardiões Mnemônicos. Um Guardião entrega a ele um livro.

"Você escreveu isso antes de dormir."

Ele abre o livro. É sua própria caligrafia. Mas não se lembra de ter escrito nenhuma daquelas palavras.

Ali está registrada uma Vida inteira que praticamente desapareceu de sua memória.


Memória como Patrimônio Coletivo

A existência dos Guardiões Mnemônicos fez com que os Nephalin desenvolvessem uma concepção muito particular de memória. Entre outras raças, preservar a memória de alguém pode ser uma forma de homenagear os mortos. Entre os Nephalin, é também uma questão de sobrevivência.

Como a raça não pode gerar novos indivíduos, a perda de conhecimento é potencialmente tão perigosa quanto a perda de vidas. Quando um Nephalin morre, não desaparece apenas uma pessoa. Enfim, podem desaparecer:

  • técnicas que apenas ele conhecia;
  • histórias que apenas ele lembrava;
  • nomes de lugares antigos;
  • conhecimentos sobre o mundo anterior ao Cataclismo;
  • experiências sobre os Arquitetos e suas políticas;
  • informações sobre a própria origem dos Nephalin;
  • e memórias de outras pessoas que já morreram.

Por isso, os Guardiões Mnemônicos possuem uma missão que muitos Nephalin consideram quase sagrada:

Nenhuma memória importante deve morrer com seu último portador.


A Contradição dos Nephalin

Essas características criam uma das maiores contradições da raça. Os Nephalin são a única raça capaz de sobreviver por milhares de anos. Mas sua memória não consegue acompanhar completamente sua longevidade.

Eles podem ser testemunhas vivas de épocas que nenhuma outra criatura conhece, mas podem não se lembrar delas. Podem carregar dentro de si conhecimentos que desaparecerão quando morrerem. Podem sobreviver ao Cataclismo, às guerras e à queda de civilizações, apenas para descobrir que suas próprias lembranças estão lentamente desaparecendo. E, por isso, a sobrevivência Nephalin possui dois significados diferentes.

Existe a sobrevivência do corpo e a sobrevivência da memória. Um Nephalin pode continuar vivo por mil anos, mas se esquecer completamente quem foi, parte daquele indivíduo já desapareceu. Da mesma maneira, um Nephalin morto pode continuar existindo de alguma forma enquanto seus conhecimentos, histórias e memórias forem preservados pelos Guardiões Mnemônicos.

O Nephalin Aventureiro

Essa característica também explica por que um Nephalin milenar pode começar uma campanha como um aventureiro iniciante. Um personagem Nephalin de poucos pontos não precisa ser jovem.

Ele pode ter centenas ou milhares de anos, mas estar começando uma nova Vida. Pode ter acabado de despertar de uma longa dormência, ter perdido grande parte de suas memórias ou abandonado uma antiga profissão. Pode ter passado séculos fazendo algo completamente diferente ou simplesmente estar tentando reconstruir uma existência depois que sua antiga Vida chegou ao fim.

Assim, os pontos de personagem representam aquilo que o Nephalin sabe, consegue fazer e consegue acessar atualmente, e não a soma de tudo aquilo que já aprendeu durante sua existência. Um Nephalin de 150 pontos pode ter sido um grande guerreiro mil anos atrás. Pode ter sido um mestre alquimista. Pode ter comandado exércitos, atravessado Zandia antes do Cataclismo. Mas essas experiências não precisam estar disponíveis para ele atualmente.

Talvez restem apenas fragmentos. Talvez estejam registradas nos arquivos dos Guardiões Mnemônicos ou mesmo uma aventura futura faça uma dessas memórias retornar. E talvez o maior mistério de um personagem Nephalin não seja descobrir o que existe à sua frente, mas descobrir quem ele foi antes de esquecer.


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