Pular para conteúdo

O Mar Morto e a Grande Ferida

Introdução

No lugar onde existiam os antigos mares, uma camada permanente de brumas oculta o antigo leito oceânico. Sob esse oceano de névoa repousam cidades afogadas pelo tempo, recifes fossilizados, navios eternamente encalhados e o maior abismo conhecido de Zandia: a Grande Ferida.

Antes do Cataclismo, havia oceanos. Mares que ligavam continentes, alimentavam florestas e sustentavam incontáveis formas de vida. Durante eras, eles moldaram o clima de Zandia e sustentaram civilizações inteiras.

Hoje, restam apenas lembranças. O Mar Morto ocupa o lugar dos antigos oceanos: uma vasta extensão permanentemente coberta por densas Brumas. De longe, elas lembram um oceano silencioso, um mar negro e imóvel que se estende até onde a vista alcança. Nenhum outro lugar simboliza tão bem o preço do Cataclismo.

A Herança do Cataclismo

Os registros históricos concordam sobre um fato: quando o jovem mago tentou tocar a Essência do Sol, o equilíbrio do mundo foi rompido.

O calor aumentou continuamente. Rios diminuíram, lagos desapareceram e mares evaporaram. O planeta inteiro transformou-se em um deserto

Entretanto, muitos estudiosos acreditam que a evaporação dos oceanos foi apenas o início. A perda de uma massa de água tão colossal alterou profundamente o equilíbrio do planeta. As antigas fossas oceânicas romperam-se e enormes abismos abriram-se no fundo dos mares agora secos. O maior deles tornou-se conhecido como A Grande Ferida. Mas essa não foi sua única consequência.


A Lei do Equilíbrio Arcano

Os maiores estudiosos da magia defendem uma teoria conhecida como Lei do Equilíbrio Arcano. Segundo ela, toda energia mágica tende naturalmente ao equilíbrio. Assim como a água busca os pontos mais baixos da terra, a magia procura as regiões onde a realidade se encontra mais instável.

Quando o Cataclismo liberou uma quantidade inimaginável de energia arcana, essa energia espalhou-se por todo o mundo. Todavia, não permaneceu assim. Durante séculos, ela migrou lentamente, escorrendo através da própria realidade, e continua fazendo isso até hoje.

A Grande Ferida tornou-se o maior sumidouro arcano conhecido. Toda instabilidade mágica de Zandia parece, lentamente, convergir para ela.


As Brumas

As Brumas são a manifestação mais visível desse processo: uma névoa negra que cobre toda a superfície antes ocupada pelas águas marinhas. A maioria dos estudiosos acredita que elas sejam uma condensação da enorme quantidade de energia arcana acumulada na Grande Ferida. Essa névoa cobre quase toda a extensão do Mar Morto, movendo-se lentamente, como se respirasse.

Em um movimento que parece imitar as marés, as Brumas mudam, abrem caminhos, fecham passagens e escondem ou revelam segredos. Alguns dias tornam-se finas e deixam entrever navios antigos, cidades em ruínas e recifes fossilizados. Em outros, tornam-se tão densas que engolem completamente o horizonte e bloqueiam o céu. Embora existam mapas, a incapacidade de usar magia e a impossibilidade de se orientar pelo sol e pelas estrelas tornam a navegação pelas Brumas extremamente difícil.

Muitos exploradores afirmam que elas parecem possuir vontade própria. Os estudiosos discordam e afirmam que deve existir alguma explicação lógica, ainda desconhecida. Talvez esteja relacionada aos astros e à influência das duas luas. Ou talvez seja a vontade dos antigos deuses e espíritos que habitavam as antigas profundezas. Até o momento, ninguém conseguiu explicá-las completamente.


A Grande Ferida

No centro do Mar Morto, escondido sob as Brumas, encontra-se o antigo ponto mais profundo dos oceanos. Hoje, ali existe um abismo colossal conhecido como A Grande Ferida. Alguns preferem chamá-la de A Cicatriz de Zandia, pois acreditam que ela representa a marca permanente deixada pelo Cataclismo sobre o mundo.

Enquanto o Mar Morto é uma vasta região de mana nula, ironicamente, a Grande Ferida é o único lugar onde a magia volta a funcionar. Em uma analogia, ela é como um imenso sorvedouro de mana, um "buraco negro" que atrai toda a energia mágica ao seu redor. Quanto mais próximo da Ferida, mais instável se torna a própria realidade.

Praticar magia dentro da Ferida é extremamente arriscado, pois seus efeitos são imprevisíveis. Até mesmo a pouca luz que resta comporta-se de maneira estranha, e os sons parecem chegar antes de sua origem. O tempo perde seu significado, enquanto as distâncias parecem mudar constantemente.

Nenhuma expedição confirmou ter alcançado seu fundo. Ou, ao menos, nenhuma retornou para descrevê-lo.


A Corrupção

A influência da Grande Ferida estende-se muito além de suas bordas. Criaturas expostas durante longos períodos às suas proximidades sofrem alterações profundas, animais tornam-se agressivos, plantas crescem em formas impossíveis e minerais adquirem propriedades desconhecidas.

Magos relatam sonhos perturbadores, perda da orientação e alterações na percepção da realidade. Os sábios chamam esse fenômeno de Corrupção.

Não existe consenso sobre sua verdadeira natureza. Alguns acreditam que seja a própria magia tentando reparar um dano impossível de ser corrigido. Outros defendem que a realidade naquela região foi tão profundamente alterada que deixou de obedecer às leis naturais.

Independentemente da explicação, uma verdade permanece incontestável: quanto mais próximo da Grande Ferida, maior a Corrupção.


Os Espíritos Perdidos

Entre todas as histórias contadas sobre o Mar Morto, poucas são tão antigas quanto aquelas que falam dos Espíritos Perdidos.

Segundo antigas tradições, os mares eram habitados por espíritos ligados às correntes, às tempestades e às grandes criaturas marinhas. Quando os oceanos desapareceram, esses seres perderam sua razão de existir. Muitos acreditam que permaneceram presos ao antigo leito oceânico, lentamente deformados pela influência da Grande Ferida.

Se isso é verdade, talvez os monstros encontrados nas profundezas do Mar Morto não tenham nascido da Corrupção. Talvez sejam apenas os últimos ecos de um oceano que jamais aceitou desaparecer.


As Regiões do Mar Morto

Os exploradores costumam dividir o Mar Morto em quatro grandes regiões:

As Margens Mortas

Correspondem às antigas costas. Ali encontram-se cidades portuárias abandonadas, docas vazias, faróis voltados para um oceano inexistente, as primeiras brumas e as primeiras marcas da corrupção. Ainda são perigosas, mas representam a parte mais explorada do Mar Morto.

O Mar Morto Interior

A vasta extensão que ocupava a maior parte dos antigos oceanos. Um oceano de Brumas que cobre recifes fossilizados, navios esquecidos e cidades perdidas. A orientação torna-se difícil, a magia não funciona. Muitos desaparecem sem deixar vestígios. É um lugar hostil, onde criaturas corrompidas espreitam abaixo da "superfície".

As Profundezas Mortas

Correspondem às antigas fossas oceânicas. As Brumas tornam-se espessas o suficiente para ocultar montanhas inteiras. Enormes cânions, paredões de pedra, ruínas preservadas e esqueletos de leviatãs gigantescos testemunham um mundo que existiu antes do deserto. Poucos ousam atravessá-las. Menos ainda retornam. A Corrupção intensifica-se.

A Grande Ferida

No centro das Profundezas Mortas encontra-se o maior abismo conhecido de Zandia. É ali que toda a energia mágica do mundo parece convergir. A instabilidade arcana atinge seu ápice.

As Brumas continuam nascendo dela. Os efeitos da Corrupção tornam-se extremos. A realidade parece permanentemente rompida. É o lugar mais perigoso de todo o continente. E talvez o único onde ainda seja possível enxergar as cicatrizes deixadas pelo instante em que um único feitiço mudou o destino do mundo.


Uma Ferida que Nunca Cicatrizou

Ninguém sabe se a Grande Ferida permanecerá para sempre como é hoje. Alguns estudiosos acreditam que ela representa apenas a consequência inevitável do Cataclismo. Outros temem algo muito pior. Acreditam que a magia continua fluindo para aquele abismo e que a realidade jamais deixou de tentar encontrar equilíbrio.

Enquanto esse processo continuar, a Ferida jamais se fechará. Talvez o Cataclismo não seja apenas um acontecimento do passado. Talvez ele ainda esteja acontecendo, lenta e silenciosamente. Como uma cicatriz que o mundo jamais conseguiu curar.