Os Nascidos da Bruma (Parte III) — A Guerra do Renascimento
"Os Nascidos não fazem guerra para conquistar cidades. Fazem guerra para esvaziá-las."
— General Armand Voss, comandante da Terceira Legião dos Arquitetos.
Para os povos de Zandia, a guerra sempre foi uma disputa por território, recursos ou poder. Reis conquistam fortalezas. Mercadores disputam rotas comerciais. Rebeldes tentam derrubar governos.
Os Nascidos da Bruma não compartilham nenhum desses objetivos. Eles não desejam governar, não reivindicam fronteiras, não saqueiam riquezas ou escravizam povos. Na verdade, pouco lhes importa quem governa uma cidade ou qual bandeira tremula sobre suas muralhas. Sua guerra possui um único propósito: levar cada vez mais pessoas à Provação.
Enquanto existir alguém que jamais enfrentou o julgamento das Brumas, sua missão permanecerá incompleta.
Uma Guerra Sem Vitória
Os Nascidos jamais consideram uma batalha como vencida pela quantidade de inimigos mortos. Também não medem sucesso pelo número de fortalezas destruídas. Para eles, uma única pessoa conduzida ao Renascimento vale mais do que um exército inteiro exterminado.
Por essa razão, suas incursões seguem uma lógica completamente diferente daquela empregada pelos exércitos de Zandia. Quando possível, evitam confrontos diretos, preferindo atacar comunidades isoladas, caravanas, pequenos assentamentos e postos avançados.
A morte é sempre o último recurso e capturar continua sendo o verdadeiro objetivo. Cada sobrevivente levado às Brumas representa uma possibilidade de Renascimento. Cada morto representa apenas uma oportunidade perdida.
Os Coletores
Toda incursão é liderada pelos Coletores, responsáveis por localizar e capturar indivíduos destinados à Provação. ELe estudam seus alvos durante dias ou até semanas antes de agir, observando hábitos, rotinas, defesas e rotas de fuga. Quando finalmente atacam, fazem-no com precisão surpreendente.
Enquanto os defensores concentram seus esforços em combater as criaturas que emergem das Brumas, pequenos grupos de Coletores atravessam silenciosamente o campo de batalha capturando aqueles que consideram mais importantes, normalmente magos, curandeiros, líderes e crianças. Nenhum critério é totalmente conhecido.
Os Arquitetos acreditam que os Nascidos escolhem indivíduos cujas capacidades possam fortalecer futuras comunidades após o Renascimento. Claro que os próprios Nascidos jamais confirmaram essa hipótese.
As Hordas Corrompidas
Poucos comandantes compreendem que os Corrompidos não são o verdadeiro ataque. A realidade é mais cruel: são apenas o início dele.
Quando uma incursão acontece, centenas de Corrompidos emergem das Brumas em um avanço caótico e aparentemente desorganizado, hurrando, correndo, escalando muralhas. Essas criaturas aterrorizantes atacam tudo o que encontram. Seu comportamento reforça a impressão de que representam a principal ameaça.
E é essa a intenção. Enquanto soldados e aventureiros concentram seus esforços em conter a horda, os verdadeiros Nascidos movem-se quase despercebidos. Eles não procuram combate, eles procuram sobreviventes. Caçam aqueles que desejam capturar.
Quando a batalha termina, frequentemente os defensores comemoram por terem eliminado centenas de Corrompidos. Somente dias depois descobrem que dezenas de pessoas desapareceram durante o confronto.
Trecho do Diário do Capitão Alaric
"Achávamos que defendíamos os portões. Na verdade, apenas mantínhamos nossos olhos voltados para o lugar errado."
O Papel das Bestas das Brumas
As Bestas das Brumas acompanham frequentemente as comunidades dos Nascidos. Diferentemente dos Corrompidos, porém, elas não parecem obedecer a qualquer comando. Sua presença lembra a de animais selvagens que compartilham o mesmo território.
Os Nascidos demonstram notável habilidade para evitar confrontos desnecessários com essas criaturas e, em algumas ocasiões, chegam a conduzi-las em direção aos campos de batalha. Não existem provas de que sejam domesticadas. A hipótese mais aceita pelos Arquitetos é que as Bestas simplesmente reconheçam os Nascidos como parte do mesmo ambiente corrompido.
Essa convivência permite que uma incursão seja acompanhada por criaturas deformadas de todos os tamanhos, aumentando ainda mais o caos entre os defensores.
Os Leviatãs
Se os Corrompidos representam a força bruta das incursões, os Leviatãs representam sua maior vantagem estratégica. Essas criaturas colossais deslocam-se lentamente através das Brumas como se ainda navegassem pelos antigos oceanos.
Diversos relatos descrevem comunidades inteiras viajando sobre seus dorsos. Servem como abrigos, templos e torres improvisadas. Alguns exploradores afirmam ter visto dezenas de Nascidos desaparecerem na névoa montados sobre uma imensa criatura semelhante a uma baleia coberta por formações cristalinas e carne corrompida.
Nenhuma expedição conseguiu acompanhar um Leviatã por tempo suficiente para descobrir seu destino. Graças a essas criaturas, os Nascidos conseguem surgir em regiões onde nenhum exército seria capaz de chegar. Não existem rotas previsíveis, linhas de suprimento ou fronteiras capazes de contê-los.
Os Arquitetos
Entre todas as ameaças conhecidas, os Arquitetos classificam os Nascidos como uma das mais perigosas. Não apenas por sua capacidade militar, mas porque representam uma ameaça à própria continuidade da civilização.
No fim das contas, fortalezas destruídas podem ser reconstruídas e exércitos derrotados podem ser reorganizados. Todavia, uma cidade cujos habitantes foram levados às Brumas jamais volta a ser a mesma. Por essa razão, toda região próxima ao Mar Morto mantém postos permanentes de observação.
A Inquisição registra cuidadosamente qualquer desaparecimento coletivo, por menor que pareça. Muitos comandantes preferem executar companheiros gravemente contaminados pela corrupção a correr o risco de vê-los capturados pelos Nascidos. É uma decisão cruel, porém considerada necessária.
Os Filhos da Anarquia
Embora combatam os Arquitetos, os Filhos da Anarquia também evitam qualquer contato com os Nascidos. Entre os rebeldes existe um antigo ditado:
"Contra os Arquitetos ainda existe esperança."
"Contra as Brumas existe apenas espera."
Diversas células rebeldes desapareceram após tentar utilizar o Mar Morto como rota para escapar da perseguição imperial e pouquíssimas retornaram. As que conseguiram voltar recusaram-se a atravessar novamente as Brumas. Nenhuma delas explicou claramente o motivo.
O Sindicato
As caravanas do Sindicato evitam qualquer trajeto próximo às regiões mais profundas do Mar Morto. Mercadores experientes sabem que perdas ocasionais fazem parte do ofício. Mas desaparecer completamente, sem vestígios de combate ou saque, é algo que poucos estão dispostos a arriscar.
Apesar disso, rumores persistem. Alguns contrabandistas afirmam que pequenas comunidades dos Nascidos trocam artefatos recuperados das ruínas do antigo oceano. Outros garantem que tais histórias não passam de invenções criadas para justificar mercadorias de origem desconhecida. Contudo, nenhuma dessas versões jamais foi confirmada.
O Conhecimento Popular
Para a imensa maioria da população de Zandia, os Nascidos da Bruma simplesmente não existem. São personagens de histórias, criaturas inventadas para assustar crianças.
Pais costumam dizer que aqueles que se aproximam demais das Brumas serão levados pelos Nascidos. Assim como tantas outras lendas, poucos realmente acreditam nessas histórias. Até que alguém desaparece.
Exploradores afirmam tê-los visto caminhando entre a névoa. Caravaneiros juram ter observado figuras silenciosas acompanhando suas viagens à distância. Soldados contam histórias sobre companheiros que desapareceram sem deixar rastros durante uma tempestade de areia. Entretando, nenhum desses relatos pode ser comprovado.
Talvez porque sejam falsos ou porque aqueles que realmente encontram os Nascidos raramente retornem.
Uma Ameaça Compartilhada
Poucas situações são capazes de fazer Arquitetos e rebeldes esquecerem suas diferenças. Uma incursão dos Nascidos é uma delas.
Existem relatos de batalhas em que soldados imperiais e membros dos Filhos da Anarquia lutaram lado a lado para impedir que comunidades inteiras fossem levadas às Brumas. Sem tratados ou alianças. Apenas uma compreensão silenciosa.
Naquele momento, ambos enfrentavam um inimigo que não desejava vencer uma guerra. Desejava apenas apagar a humanidade que ainda existia em Zandia.
Relatório da Inquisição — Documento 91-C
"Caso uma incursão seja confirmada, toda disputa local deverá ser imediatamente suspensa. Rebeldes, mercenários e tropas imperiais passam a representar objetivos secundários. A prioridade absoluta é impedir que qualquer civil seja levado em direção às Brumas. Uma pessoa capturada pode retornar. Mas jamais será a mesma."