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O Cataclismo

"Quando os Deuses Antigos tombaram, as correntes que aprisionavam a Besta do Sol se romperam. Então ela despertou faminta. Seu hálito incendiou os céus, seu olhar abrasou a terra, e durante dois anos bebeu as águas do mundo. Mares, rios e lagos secaram diante de sua fome. Quando enfim saciou sua sede, restaram apenas areia, sal e as Brumas que ainda hoje cobrem o leito do Mar Morto."

O Mito da Besta do Sol

Nenhum homem vivo sabe como o mundo realmente perdeu suas águas. Os sábios discutem, os sacerdotes pregam e os anciãos contam histórias diferentes, mas todas concordam em um único ponto: o Cataclismo começou quando os Deuses Antigos morreram.

Diz-se que, enquanto existiam, eles mantinham aprisionada nas profundezas do Sol uma entidade primordial, uma criatura tão antiga quanto a própria criação. Seu nome perdeu-se com o tempo, e hoje ela é conhecida apenas como a Besta do Sol. Quando os Deuses pereceram, nada restou para conter sua fome.

A criatura despertou e seu calor tornou-se insuportável. O Sol passou a arder com um brilho jamais visto. Durante dois anos, a Besta devorou as águas do mundo. Os mares desapareceram diante de seus olhos, rios secaram em seus leitos e lagos transformaram-se em planícies de sal.

Quando não havia mais água para consumir, a criatura adormeceu novamente. O Sol permaneceu mais quente do que antes, como uma lembrança eterna de sua passagem, e o mundo jamais voltou a ser o mesmo. Onde antes existia o grande oceano, restaram apenas o Mar Morto, as Brumas Negras e as carcaças petrificadas de navios e monstros marinhos.

Para a maioria dos povos de Zandia, essa não é uma metáfora nem uma alegoria. É um fato histórico transmitido pelas religiões, pelos bardos e pelas tradições orais. Poucos ousam questioná-lo, pois olhar diretamente para o Sol ainda é visto como desafiar a própria Besta, que um dia poderá despertar novamente para terminar aquilo que começou.


A Verdade

O fim dos oceanos de Zandia não foi um evento instantâneo, mas um processo que se estendeu por aproximadamente dois anos. Sua causa foi uma combinação de fenômenos astronômicos e climáticos desencadeados pelo Cataclismo.

Durante esse período, a órbita de Zandia sofreu uma alteração significativa, aproximando o planeta do Sol. Ao mesmo tempo, a própria estrela tornou-se temporariamente mais luminosa e quente, irradiando muito mais energia do que em qualquer outro momento de sua história.

O aumento da insolação elevou rapidamente a temperatura média global. O calor intensificou a evaporação em uma escala sem precedentes. Os mares começaram a recuar, os rios diminuíram de volume e os lagos desapareceram um após o outro.

À medida que a água evaporava, a atmosfera tornou-se saturada por enormes quantidades de vapor. As antigas correntes de ar foram completamente alteradas. As chuvas cessaram quase por completo e as nuvens deram lugar a um céu permanentemente ofuscado pela intensa luminosidade solar e por massas de vapor e partículas suspensas.

Durante cerca de dois anos, os oceanos continuaram alimentando esse ciclo de evaporação até que praticamente toda a água superficial do planeta desapareceu. Restaram apenas pequenas reservas subterrâneas, aquíferos profundos e raríssimos oásis preservados em condições excepcionais.

Quando a atividade do Sol finalmente se estabilizou, Zandia permaneceu em uma nova órbita, mais próxima da estrela do que antes. O planeta nunca voltou ao clima antigo. A temperatura média permaneceu muito mais elevada, transformando antigas florestas em desertos e condenando a maior parte da superfície a uma aridez permanente.

As Brumas que hoje ocupam o leito do Mar Morto são uma consequência indireta desse evento, surgidas após o desaparecimento dos oceanos e ligadas aos efeitos sobrenaturais do próprio Cataclismo.