Os Nascidos da Bruma (Parte I) - Origem e Filosofia
"Eles acreditam que nós vivemos uma mentira. O mais assustador é que jamais tentam nos convencer disso. Apenas esperam o dia em que poderão nos mostrar a verdade."
— Trecho do diário do inquisidor Marius Valen.
Poucas ameaças despertam tanto temor em Zandia quanto os Nascidos da Bruma. Embora sejam frequentemente tratados como lendas pela população comum, sua existência é reconhecida pelos Arquitetos, estudada pela Inquisição e temida por praticamente todas as organizações que se aventuram nas proximidades do Mar Morto.
Ao contrário de bandidos, cultos ou exércitos organizados, os Nascidos não buscam riqueza, território ou poder político. Não reivindicam reinos, não estabelecem fronteiras e tampouco demonstram interesse em governar outros povos. Seu objetivo é muito mais profundo e, justamente por isso, muito mais inquietante.
Eles acreditam que toda forma de vida deve passar por aquilo que chamam de Renascimento.
Segundo sua filosofia, a humanidade vive aprisionada em uma existência incompleta, incapaz de compreender a verdadeira natureza do mundo. As Brumas não seriam uma maldição nem uma força destrutiva, mas um instrumento de revelação. A corrupção que aterroriza os povos de Zandia seria, para eles, apenas o processo pelo qual tudo aquilo que é falso é removido, permitindo que reste apenas a verdadeira essência de um indivíduo.
Essa convicção faz dos Nascidos uma das maiores ameaças do continente. Eles não pretendem exterminar a civilização. Pretendem transformá-la.
Uma Nova Humanidade
Os Nascidos não se consideram sobreviventes das Brumas. Também não se enxergam como vítimas da corrupção ou como pessoas deformadas por ela. Na visão dos povos de Zandia, eles são criaturas corrompidas que preservaram a inteligência. Na própria visão dos Nascidos, entretanto, essa interpretação é completamente equivocada.
Para eles, os homens e mulheres que um dia existiram morreram durante a Provação. Aqueles que emergiram conscientes das Brumas são seres completamente novos, libertos das limitações impostas pela antiga humanidade.
É por esse motivo que raramente utilizam nomes de nascimento ou fazem referência à vida que possuíam antes do Renascimento. Memórias antigas não são negadas, mas tratadas como lembranças pertencentes a outra existência, da mesma forma que um adulto recorda sua infância sem acreditar que ainda seja aquela criança.
Para os Nascidos, o verdadeiro nascimento ocorre apenas após a Provação. Tudo o que existe antes disso é apenas preparação.
A Origem
Os registros mais antigos sobre os Nascidos surgem poucas décadas após o Cataclismo. Naquele período, as primeiras expedições ao antigo leito dos oceanos relatavam desaparecimentos inexplicáveis, ruínas envoltas por uma névoa permanente e estranhas figuras humanoides observando viajantes à distância.
Durante muito tempo acreditou-se que esses relatos descreviam apenas sobreviventes enlouquecidos pela corrupção. Essa hipótese tornou-se insustentável quando diferentes expedições, realizadas em épocas e locais distintos, passaram a registrar exatamente os mesmos comportamentos.
As figuras nunca atacavam imediatamente, na realidade moviam-se em pequenos grupos, demonstrando disciplina e retiravam-se levando prisioneiros. E, acima de tudo, pareciam perfeitamente adaptadas às Brumas.
Pouco a pouco tornou-se evidente que alguma sociedade havia surgido nas profundezas do Mar Morto. Quem eram seus membros... Ou como haviam sobrevivido... Continuava sendo um mistério.
O Primeiro Renascimento
Nem mesmo os próprios Nascidos afirmam conhecer sua verdadeira origem. Sua tradição oral não preserva nomes de fundadores nem descreve um primeiro líder. Para eles, essas perguntas pertencem ao mundo antigo e não possuem importância. O Renascimento não teria começado com uma pessoa, mas com as próprias Brumas.
Entre os estudiosos dos Arquitetos existem diversas teorias. Alguns defendem que pequenos grupos de sobreviventes permaneceram presos no Mar Morto logo após o Cataclismo e, ao longo das gerações, apenas aqueles capazes de suportar a corrupção preservaram a consciência. Outros acreditam que o surgimento dos Nascidos está diretamente ligado à Grande Ferida e que o fenômeno continua ocorrendo até os dias atuais. Nenhuma hipótese foi comprovada.
Os próprios Nascidos jamais demonstraram qualquer interesse em responder essa pergunta. Para eles, investigar o passado significa permanecer preso a uma vida que já terminou.
A Filosofia do Renascimento
Toda a visão de mundo dos Nascidos pode ser resumida em uma única afirmação:
As Brumas jamais erram.
Enquanto os povos de Zandia enxergam a corrupção como uma força caótica e destrutiva, os Nascidos acreditam que ela segue uma ordem perfeita, ainda que incompreensível para aqueles que vivem fora do Mar Morto. Segundo sua doutrina, toda criatura que atravessa as Brumas é submetida à Provação, um julgamento que revela sua verdadeira natureza. Esse julgamento não depende de coragem, fé, conhecimento ou poder.
As Brumas simplesmente revelam aquilo que sempre existiu. Diante dessa revelação existem apenas três destinos possíveis.
A Rejeição
Alguns sucumbem durante a travessia. Os Nascidos acreditam que essas pessoas jamais conseguiram abandonar a antiga existência. Enfim, elas morreram antes de conhecer a verdade.
A Queda
Outros sobrevivem fisicamente, mas têm a mente consumida pela corrupção. Perdem identidade, memória e razão, transformando-se nos Corrompidos. Os Nascidos não os consideram monstros, pelo contrário, são irmãos cuja consciência não suportou a Provação.
O Renascimento
Em casos extremamente raros, a corrupção transforma o corpo sem destruir a consciência e o indivíduo desperta diferente. Não apenas fisicamente, sua percepção do mundo também muda.
Segundo os Nascidos, nesse momento nasce uma nova existência. A pessoa que entrou nas Brumas morreu e aquilo que saiu delas é um Nascido da Bruma.
A Liturgia do Renascimento
Toda comunidade dos Nascidos recita as mesmas palavras antes de conduzir um prisioneiro à Provação.
"Que as Brumas levem aquilo que precisa morrer."
"Que permaneça apenas aquilo que é verdadeiro."
"Se eu cair, era indigno."
"Se eu enlouquecer, era fraco."
"Se eu renascer, caminharei entre meus irmãos."
"Assim é a vontade das Brumas."
Para os povos de Zandia, essas palavras representam uma oração. Os Nascidos discordariam. Para eles, não se trata de fé. É apenas a aceitação de uma verdade inevitável.
Uma Ameaça Sem Ódio
É comum que estudiosos tentem classificar os Nascidos como um culto religioso, uma seita fanática ou uma organização extremista. Todas essas definições falham. Afinal, os Nascidos não procuram converter pessoas e nem recrutam seguidores. Não pregam, não prometem recompensas, também não demonstram prazer na violência. Eles simplesmente acreditam que nenhum ser vivo deveria morrer sem enfrentar a Provação.
Por isso capturam homens, mulheres e crianças sempre que surge uma oportunidade, conduzindo-os até as regiões mais profundas do Mar Morto para que as próprias Brumas decidam seu destino.Aqueles que morrem eram indignos. Aqueles que enlouquecem encontraram seu limite. E aqueles que renascem tornam-se seus irmãos.
Essa convicção absoluta torna qualquer negociação impossível. Os Nascidos não odeiam os povos de Zandia. Na verdade, acreditam sinceramente estar oferecendo o maior presente que um ser vivo pode receber. É justamente essa ausência de crueldade aparente que torna sua existência tão perturbadora.
Relatório Confidencial da Inquisição — Documento 12-A
"Os prisioneiros recuperados afirmam que jamais sofreram tortura. Receberam alimento, água e cuidados sempre que necessário. Todos, sem exceção, relataram que seus captores demonstravam sincera compaixão por seu medo da Provação. Um deles declarou que a última frase dita por um Ancião da Névoa antes de conduzi-lo às Brumas foi: 'Não tenha medo. Hoje você finalmente conhecerá a verdade.'"