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Os Nascidos da Bruma (Parte II) — A Sociedade das Brumas

"Não encontramos um acampamento de sobreviventes. Encontramos uma civilização."

— Trecho do relatório do explorador Edric Hallow, desaparecido três dias após seu retorno.

Durante séculos, os povos de Zandia imaginaram que as Brumas eram incapazes de sustentar qualquer forma organizada de vida. A ausência de sobreviventes e o desaparecimento constante de expedições reforçaram a crença de que nada poderia prosperar em um ambiente tão hostil.

Essa conclusão mostrou-se incorreta.

Os Nascidos da Bruma não apenas sobrevivem nas profundezas do Mar Morto como construíram uma sociedade inteiramente adaptada à corrupção. Embora seus costumes pareçam incompreensíveis para os povos civilizados, sua organização demonstra planejamento, cooperação e uma impressionante capacidade de adaptação.

Ainda assim, seria um erro compará-los às nações de Zandia. Eles não possuem reinos, não reconhecem fronteiras e não constroem impérios. Toda a sua sociedade existe para cumprir um único propósito: conduzir o mundo ao Renascimento.


As Comunidades das Brumas

Os Nascidos habitam as regiões mais profundas do Mar Morto, onde a corrupção é tão intensa que poucos seres vivos conseguem permanecer conscientes por muito tempo. Suas comunidades foram construídas sobre os esqueletos dos antigos navios abandonados quando os oceanos desapareceram durante o Cataclismo.

Centenas de embarcações permanecem encalhadas nas dunas de sal e areia negra, ligadas por passarelas, pontes improvisadas e estruturas erguidas ao longo dos séculos. Conveses transformaram-se em praças. Porões tornaram-se dormitórios. Antigas salas de comando foram convertidas em templos. Os mastros sustentam plataformas de observação de onde vigias acompanham silenciosamente o movimento das Brumas.

À distância, essas cidades parecem um imenso cemitério de navios engolido pela névoa. Nenhum mapa registra sua localização. Talvez porque elas próprias mudem com o tempo. Ou talvez porque aqueles que as encontram raramente retornem.


Uma Sociedade Sem Propriedade

Entre os Nascidos não existem reis, nobres ou comerciantes. Também não existe riqueza. A ideia de possuir bens individuais perdeu completamente o sentido após o Renascimento. Tudo pertence à comunidade: ferramentas, alimentos, abrigos e conhecimento. Cada indivíduo utiliza apenas aquilo de que necessita e devolve à comunidade quando já não precisa mais.

A acumulação de riquezas é vista como um comportamento típico daqueles que ainda vivem presos ao mundo antigo. Da mesma forma, títulos de prestígio ou demonstrações de poder pessoal são considerados sinais de uma mente que ainda não compreendeu a vontade das Brumas.


Os Anciãos da Névoa

Cada comunidade é conduzida por um pequeno grupo conhecido como Anciãos da Névoa.

Ao contrário dos governantes das cidades de Zandia, sua autoridade não nasce da força militar nem da herança. Os Anciãos são simplesmente os Renascidos mais antigos e experientes. São eles que preservam a tradição oral, interpretam os sinais das Brumas e decidem quando uma comunidade deve permanecer onde está ou iniciar uma nova peregrinação.

Nenhum Ancião governa sozinho. As decisões importantes costumam ser tomadas coletivamente, após longos períodos de contemplação e silêncio. Os próprios Nascidos afirmam que nenhuma decisão verdadeiramente importante pode ser tomada com pressa.


Os Coletores

Entre os povos de Zandia, poucos nomes despertam tanto medo quanto os Coletores. São eles os responsáveis por atravessar as Brumas e capturar aqueles destinados à Provação.

Ao contrário do que muitos imaginam, os Coletores raramente demonstram agressividade desnecessária. Sempre que possível, preferem capturar seus prisioneiros vivos e com o mínimo de sofrimento. Feridos recebem tratamento, famintos recebem alimento. Mesmo acorrentados, os prisioneiros costumam ser tratados com respeito.

Essa aparente misericórdia torna sua presença ainda mais perturbadora. Os Coletores não enxergam seus cativos como inimigos. Enxergam-nos como futuros irmãos.


A Provação

Toda captura possui um único destino: a Grande Ferida.

Os prisioneiros são conduzidos lentamente através das Brumas até as regiões onde a corrupção atinge sua maior intensidade. Ali ocorre aquilo que os Nascidos chamam de Provação. Nenhum ritual é realizado, nem sacrifício é oferecido. Nenhuma sentença é pronunciada.

Os próprios Nascidos acreditam que não possuem o direito de interferir. Cabe apenas às Brumas decidir quem morrerá, quem sucumbirá à loucura e quem renascerá. Quando a Provação termina, os sobreviventes jamais são vistos da mesma forma.

Alguns tornam-se Corrompidos. Outros despertam como novos membros da comunidade. Os demais simplesmente deixam de existir.


Aliados nas Brumas

Os Corrompidos

Para os povos de Zandia, os Corrompidos representam monstros enlouquecidos que devem ser destruídos. Os Nascidos possuem uma visão completamente diferente. Na sua filosofia, os Corrompidos fracassaram apenas parcialmente.

Embora tenham perdido a razão, ainda pertencem às Brumas. Por esse motivo jamais são caçados ou exterminados pelos Nascidos. Ao contrário, recebem alimento quando necessário, são protegidos contra ameaças externas. E frequentemente acompanham as comunidades durante suas migrações.

Em momentos de conflito, enormes grupos de Corrompidos avançam naturalmente ao lado dos Nascidos, funcionando como a primeira onda de qualquer incursão. Comandos e ordens são desnecessárias. Ainda assim, a cooperação entre ambos parece ocorrer de maneira espontânea. Nem mesmo os Arquitetos conseguiram explicar esse fenômeno.


Os Leviatãs

Entre todas as criaturas do Mar Morto, nenhuma é tratada com maior reverência do que os Leviatãs. Os Nascidos acreditam que essas entidades foram as primeiras a aceitar plenamente a vontade das Brumas.

Não são considerados animais, monstros ou nem mesmo deuses. São vistos como manifestações vivas da própria transformação que moldou o Mar Morto.

Relatos de exploradores sugerem que algumas comunidades conseguem viajar sobre o dorso dessas criaturas colossais, atravessando regiões das Brumas impossíveis de alcançar por qualquer outro meio. Os próprios Nascidos jamais afirmam controlar os Leviatãs. Sempre que questionados, respondem apenas que ninguém pode comandar aquilo que caminha na mesma direção.


A Vida nas Brumas

A rotina dos Nascidos é surpreendentemente tranquila. Eles cultivam alimentos adaptados à corrupção. Coletam recursos nas ruínas do antigo oceano recuperando objetos trazidos pelas tempestades de areia. Constroem novas estruturas utilizando madeira, metal e pedra retirados dos navios encalhados.

As comunidades raramente demonstram pressa. Não existem mercados ou disputas comerciais. Poucos trabalhos são realizados por obrigação. Cada indivíduo simplesmente executa aquilo que considera necessário para o bem coletivo.

Para um observador desavisado, uma comunidade dos Nascidos pode parecer estranhamente pacífica. É justamente essa serenidade que torna sua verdadeira natureza tão difícil de compreender.


A Serenidade

Talvez a característica mais perturbadora dos Nascidos seja sua absoluta ausência de ódio. Eles não comemoram vitórias ou humilham prisioneiros. Não demonstram prazer em matar.

Mesmo durante uma incursão, mantêm a mesma calma observada em suas comunidades. Conversam em voz baixa, movem-se lentamente e ajudam companheiros feridos. Tratam seus cativos com uma gentileza quase paternal.

Na visão deles, toda violência representa apenas uma etapa necessária para conduzir alguém ao Renascimento. É por isso que negociar com um Nascido é praticamente impossível.

Não existe ganância a explorar ou ambição a corromper; são imunes a medo e intimidação. Existe apenas uma certeza inabalável. Mais cedo ou mais tarde, todos conhecerão a verdade das Brumas.

Relatório Confidencial da Inquisição — Documento 38-B

"O sobrevivente afirmou que seus captores permaneceram ao seu lado durante toda a travessia. Um deles chegou a carregar uma criança nos braços por vários quilômetros para poupá-la do cansaço. Quando questionado sobre o motivo daquela gentileza, respondeu apenas: 'Porque em breve ela será nossa irmã.'"